Oclin: Da Quebrada Para o Mundo

No corre desde pequeno, Oclin representa muito mais do que apenas rimas afiadas: ele é voz, corpo e alma da quebrada. Em entrevista exclusiva para a WRLDMAG, o jovem de 19 anos falou sobre o início nas batalhas, as dificuldades de conciliar trampo e sonho, e o impacto das suas vivências na sua arte.

Foi através das batalhas que o freestyle entrou de vez em sua vida. Inspirado em vídeos da Batalha do BMO que via no Facebook, ele começou a rimar nas ruas com os amigos. “No começo era só rima de terminação básica, improvisando, até expandir.

INTRODUÇÃO

Mano, eu sou o Oclin, tá ligado? Tenho 19 anos e posso dizer que faço bastante coisa, né? Eu já fui MC de batalha, então tenho um pouco ali do freestyle comigo. Hoje em dia, eu tô fazendo uns sons, também gravo uns vídeos de forma mais amadora, mais suave. E, mano, mestre de cerimônia, né? Sempre falando pra caralho, animando o rolê. É um bagulho que eu descobri fazendo música e que eu gosto muito também.


Queria que você falasse sobre o começo nas batalhas. Como surgiu o interesse de fazer?


Mano, é uma história muito louca. O começo é tipo assim: a minha história com freestyle é um bagulho que eu tenho flashes de memória, podemos dizer.


Quando eu era menorzão, ainda morava no Santa Lúcia. Tinha um projeto social lá chamado Projeto Filhos. Era quebrada mesmo, o bagulho era louco. Um lado era a polícia, o outro lado era os caras, todo mundo na maldade da rua.


Foi lá que eu, meu primo e vários moleques da rua encostavam. A gente dançava break, né, mano? Antes de eu ser MC ou músico, eu já expressava minha arte com o corpo, dançando break.


Meu contato com o freestyle foi aí, através das batalhas. Eu via algumas batalhas no Facebook na época, tipo a Batalha do BMO. A gente ficava nessa de tentar rimar entre nós, tentando se jogar no bagulho.


No começo, eu olhava e pensava: “Mano, se o bagulho pegar, tem que mandar e mandar”. Até que o freestyle começou a sair naturalmente. No começo era improvisação básica, rimar só a terminação, até expandir.

Qual foi o seu primeiro evento de batalha?

Comecei mesmo num evento no Projeto Filhos, que era uma batalha de break, mas também ia ter uma batalha de rima. Um amigo meu que já rimava tinha se mudado e conhecido o Mano Tank, que tava ajudando ele nas batalhas.

Nesse dia, trombei esse parceiro e o Mano Tank também. Eu já queria rimar, mas tava meio tímido. Os caras incentivaram: “Mano, vai, rima!” Quando eu rimei, foi uma sensação única. Foi tipo o meu segundo impacto com o hip-hop. O primeiro foi dançando break. O segundo foi nas rimas. Falei: “Nossa, mano, que bagulho louco que eu tô fazendo!” Essa batalha foi em 2018. Depois eu esperei uns meses porque não tinha como colar na batalha sempre, era longe e eu ainda não tinha tanta atitude.


Comecei a encostar frequentemente em 2019. Vi que ia ter a batalha de raiz, dei um salve no Mano Tank. Perguntei até se precisava pagar pra participar — eu tinha zero noção.

Ele falou: “Não, mano, só chega, coloca o nome e manda umas rimas”. Aí eu encostei e nunca mais saí. Foi um lugar onde me senti mais vivo.

A batalha era uma forma de expressar o que eu sentia, ainda mais que eu era tímido na época. Foi muito importante pra mim.

Mano, nem era pra eu ter encostado nessa batalha em 2019. Minha mãe não ia deixar, meu irmão também não queria me levar. Já tinha desistido. Tava no quarto, largando mão. Aí, do nada, meu irmão falou: “Ah, vou levar.” E eu fui. Totalmente emoção. Uma hora depois já tava lá batalhando.

Qual foi o momento mais marcante batalhando?

Mano, momentos dentro da batalha tem muitos, tá ligado? Mas, pra mim, o momento mais marcante foi a Batalha do Red Bull Francamente, onde eu rimei com o Yoga e com o Tubarão.


Tipo, eram uns caras que eu via lá de longe e, de repente, estavam na minha frente. E eu falei: “Bagulho é isso, não vamos só respeitar, vamos fazer o bagulho acontecer!”


Quando eu ganhei do Tubarão, mandei rima absurdamente boa, muita rima foda. Foi quando caiu a ficha: “Ganhei o bagulho!” Foi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória, abriu muitas portas pra mim.


Sobre essa migração dos MCs da batalha para o lado musical, como você enxerga isso?

Hoje em dia eu vejo como uma parada que faz parte do jogo, tá ligado? A gente vê MCs ficando famosos nas batalhas, mas depois somem porque não conseguem estourar no som. Às vezes, o bagulho do mano é realmente batalha, ele ama aquilo, mas, infelizmente, não dá pra se manter de freestyle ainda.

Então, migrar pra música é meio que buscar viver da arte, né? Uma continuidade. Fazer som é a forma mais próxima de viver do freestyle.

Vejo avanços, tipo a Batalha da Aldeia pagando premiação do primeiro ao último colocado. Isso é muito foda, porque muita gente sonha em viver só da batalha.


Como foi começar a compor além de freestyle ?

Foi um processo complicado, mano. Escrever eu já escrevia há muito tempo, tá ligado? Eu sempre pensei muito e transbordava isso escrevendo.


Cheguei a escrever poesias — tem até uma no YouTube chamada “Caos Interior”, que eu escrevi com 13 anos. Era 100% sentimento da época.


Escrever músicas foi outra fita. No começo, eu tava mais próximo do trap, mas sentia que ainda não era eu. Gravava bastante coisa, até montava estúdiozinho em casa.

Tem vários trampos guardados que eu nunca lancei. Guardo como memória afetiva, pra ouvir minha evolução.


Migrar do freestyle pro som foi seletivo. Comecei colando nas batalhas, percebi que dava pra desempenhar ali, mas também dava pra fazer sons e crescer.


A gente olha pros caras grandes e vê que todos migraram pro som. Era natural ter essa visão também.

Suas referências ?

Mano, é uma parada bem complexa. Eu consumo muita coisa diferente, tá ligado? Não é porque eu faço boom bap que eu ouço só boom bap.


Gosto bastante do BK’, do Sain, do Febem… Consumo também coisas de fora, tipo Kendrick Lamar, Frank Ocean, e também Frank Sinatra.


Ouço muitos instrumentais também, tipo piano, boombap, lo-fi.


Mas onde me referencio mais é nos brasileiros mesmo: BK’, Febem, Sain. E também tem os meninos do Complô, daqui de Bragança, que são referência pra mim.


Claro, não pode faltar Racionais MC’s e Facção Central. Bagulhos que eu ouvia todo dia quando era criança.

E sobre o processo de escrever música, como batalhar ajudou nisso?


As batalhas ajudaram principalmente a me soltar, mano. Eu era muito retraído, tímido. Sempre falei bastante, mas só com quem eu tinha intimidade.


A batalha foi me soltando, tipo, rimar com um monte de gente assistindo já era um treino absurdo.


Sobre escrever música, no começo empacou um pouco, porque freestyle é o que vem na mente na hora, e música é sentar e construir algo.


Mas hoje em dia vejo como algo mais fácil. Aprendi a adaptar: tem sons que eu escrevo freestyle, vou fazendo e moldando as ideias.


Claro que tem que ter estudo também: conhecer palavras, ideias, conceitos, pra enriquecer o freestyle e a escrita.

Seus sons falam muito sobre suas vivências e sua área. Como isso impacta na sua arte?

Mano, minhas vivências e minha área são tudo, tá ligado?

Tem até aquela música dos Racionais que fala: “Tão pensando em me mudar daqui, mas e aí, minha área é tudo que eu tenho.”


É esse sentimento. Tipo, da hora você sair pra buscar outras paradas, mas as coisas que você vê e vive na quebrada são únicas.


Morei no Santa Lúcia até os 17 anos, numa época em que o bagulho era louco, né? Nós via umas paradas absurdas: jogar futebol e ter cara guardando droga na quadra, sair na rua de noite e trombar com a rota enquadrando geral, botando arma na cara dos outros…

São coisas fortes que marcam a gente. Mas também tem o lado bom, tá ligado? Tem a positividade do cotidiano: momentos de risada, de quebrada viva.


Eu gosto de apresentar esses dois lados nos meus sons. Relatar tanto as dificuldades quanto a positividade do dia a dia.


Hoje, a violência diminuiu um pouco em comparação aos anos 90, mas ainda existe.

Então acho importante continuar relatando, pra não esquecer que ainda acontece. E também observar o que tá em volta, trazer histórias que eu vejo e admiro pra dentro das minhas músicas.


No final, minha área é tudo o que eu tenho. Mesmo com todas as dificuldades, a quebrada é foda.


E como é conciliar trampo e sonho? Dividir atenção entre os dois?

Mano, sinceramente, é absurdo.

Desde cedo eu já tive que lidar com a dualidade entre o que eu queria fazer (arte) e o que meu pessoal queria que eu fizesse.


Minha mãe falava: “Você tem que fazer outra coisa”, meu pai também. “Esse negócio de rima aí não dá futuro.”

Antes mesmo de trabalhar, já existia essa batalha interna.


Quando saímos da pandemia, eu já tinha 16 anos. Aí veio aquela pressão: arrumar um trampo, ganhar um dinheiro, começar a ajudar em casa.


Você percebe que não adianta nada ser o foda na rua, lançar som, ter kit novo, se dentro de casa tá faltando arroz, luz atrasada, tá ligado?

Então comecei a priorizar minha família, meu pessoal. Minha prioridade hoje é: minha família tá bem primeiro, pra depois eu investir no meu sonho.


Claro, tento me priorizar também, pra não passar vontade com minhas coisas. Porque, mano, trampo e sonho são duas paradas que sugam muito.


Se você pender só pra um lado, ou só pro outro, acaba se matando no processo.

O segredo é equilíbrio: sempre se regulando, planejando e olhando o que precisa ser feito.

como foi a sua entrada na Solana?

Mano, minha entrada na Solana é um bagulho muito louco, uma conexão absurda.

Meu momento mais marcante nas batalhas foi a Batalha do Red Bull Francamente, que eu falei antes. Ganhei do Tubarão e do Ioga, foi um bagulho absurdo.


E foi nesse evento que o Vinnie (da Solana) tava lá, com o filho dele. Eu nem sabia!

Ele viu minha batalha e depois me mandou um salve:

“Pô, mano, tava lá, vi você rimando, mandou bem demais. Vou te dar uma produção.”


Mano, ele me deu uma produção completa!

Aí eu encostei pra gravar um som aqui com os parceiros, e desde o primeiro contato com o Vinni eu vi que ele tinha uma visão muito foda do bagulho.


Tava focado em construir, aprender, crescer. Eu tava com fome também, queria aprender, queria fazer som, e a conexão bateu.


Desde então, estamos aí, construindo junto.


Deixa três indicações de artistas locais


Mano, ó, que eu posso indicar aí pra vocês, mano. Primeiro, o Octopus Machine, né? Trampos diferenciados aí, tipo, bem mais fora do comum, assim.


Mas também posso indicar aí, mano, pra quem já me acompanha, que tá mais ali no segmento dos com Bep, mano. Eu ouvi os meninos do Complô, né, mano? BVR, o Bonassa.eu gosto bastante de um mano, porque ele é de… Ele é de Minas, né, mano? Eu não sei especificamente se ele é de Extrema, tá ligado? Se ele é de Extrema ou se ele mora ali por perto, mano. Mas o vulgo dele é “vloneconha”, tá ligado? Acho que ele faz uns trampos assim, bem diferenciados, tá ligado? E fala uns bagulhinhos, mano, que têm que ser falados, acho.

O que a gente pode esperar do Oclinho daqui pra frente? Diz aí se tem alguma novidade.

Mano, então… Novidade aí, né, mano? Sempre tá tendo. Toda semana nós estamos gravando trampo novo, tá ligado? Toda semana estamos gravando coisa nova.


Mano, posso dizer que logo menos vai chegar um bobé-pão bem pesado, tá ligado?

E, mano, vou dar só um spoiler mesmo pra quem acompanha de verdade, tá ligado? Mano, fala um bagulhinho: é só me aguardar na rua, mano, que eu vou aparecer. Quando vocês menos pensarem, tá ligado?

Eu vou brotar na rua, como se eu tivesse escavado um buraco da onde eu tô e aparecido em algum lugar, fazendo alguma coisa, tá ligado? Vocês vão entender isso, mano. Vocês vão entender isso logo menos.


Nós estamos com umas ideias fortes aí.

E, mano, acho que sobre o Oclinho daqui pra frente… Vocês podem esperar um Oclinho muito mais artístico, assim.

Tipo, me vendo muito mais ali pro lado musical, compondo bastante coisa. Tipo, compondo bobé-p, mas não se limitando a isso. Fazendo trap, fazendo love song.

Tenho essa versatilidade, né? Gosto de explorar vários gêneros, tá ligado?

Pra quem tenta limitar nós a uma parada e falar: “não, ele é MC, ele é o cara do freestyle, ele é o cara que faz boombap, mano, não dá.


Porque, mano, se caracteriza como artista, né, mano? Então é um bagulho que engloba muita coisa: artista barra músico, né?

Tipo, posso falar que eu me considero rapper, tá ligado? Porque é a minha cultura de origem, é o bagulho que eu faço. Só que também não significa que eu faça só isso.


Mano, posso estar fazendo vários outros trampos e também estar em conexão com várias outras pessoas de outros gêneros pra fazer trampo junto.


Então, mano, pra quem gosta de música de vários estilos diferentes, vocês podem esperar muita coisa. Vai vir uns trampos absurdos aí, mano.


Tô tocando uns feats muito loucos também.

E é isso, né, mano? Um Oclinho mais musical, mais artístico, tá ligado? E também sem limitações. Zero limitações, tá ligado?

Vou estar me desdobrando da melhor forma, fazendo tudo que tem que ser feito.

Mudando o jeito de cantar, estudando mais sobre a música, sobre o canto, pra conseguir sempre desempenhar o meu melhor.


E, mano, poder também trazer os trampos da melhor forma pra vocês, né?

Pra conseguir cada vez mais expressar e registrar esse mundo que eu vejo e observo.

ENTREVISTA FEITA POR LUIZ GUSTAVO

EQUIPE: WRLDMAG